quinta-feira, 11 de setembro de 2014

E O MALA-FAIA




 

[LEIAM O TEXTO TODO. LER É BOM E AJUDA A GENTE A SAIR DO SENSO COMUM E A EMITIR OPINIÕES MAIS CONSISTENTES SOBRE OS ASSUNTOS QUE NOS INTERESSAM!]

Estão circulando na internet (inclusive noticiados por portais de jornalismo) alguns levantamentos como este em anexo. Eles são, sem dúvida, surpreendentes. Porém exigem interpretação que vá além da "acusação" de que se trata de uma obsessão pessoal do pastor devido a um suposto recalcamento da própria homossexualidade. Não, não se trata (ou não se trata apenas) de homossexualidade recalcada!
A questão é um pouco mais complexa e precisa ser melhor aprofundada [ainda que eu não vá aprofundá-la como gostaria devido ao fato de que, aqui, em geral não se tem paciência para textos mais longos e densos]:
A homofobia é um dispositivo cultural que serve ao mesmo tempo à hierarquia das sexualidades (sendo a heterossexualidade para fins de procriação posta como natural, legítima e virtuosa; enquanto as outras sexualidades são consideradas pecado, desvio, perversão e crime) e servem à vigilância das fronteiras de gênero (segundo as quais a mulher não pode ser como - nem fazer "coisas de" - homem e vice-versa). E, como tal, a homofobia serve à ordem da dominação masculina e a todos os privilégios que essa ordem engendra.
A Igreja (as religiões monoteístas do Livro) é uma das instituições beneficiadas por essa ordem e se esforça por diversos meios para reproduzi-la (ainda que, dentro dela, em todas religiões monoteístas do Livro, haja exceções e alguma dissidência sempre debelada).
A homofobia mais que o racismo tornou-se estratégica nessa batalha da Igreja por manter a ordem da dominação masculina porque incide sobre sexualidade (ao que temos de mais íntimo) e, portanto, permite um controle insidioso sobre as pessoas.
Além disso, há uma questão prática (financeira) nessa estratégia de difamar a comunidade homossexual (daí MAL-AFAIA falar mais de gay que de Jesus): os preconceitos anti-homossexual são milenares e remontam à própria origem do judaico-cristianismo e do Islamismo; somos, portanto, feitos deles (desses preconceitos transmitidos principalmente pela Língua) e, deles, pouco nos livramos se não nos abrirmos ao conhecimento e/ou se não tivermos acesso à educação de qualidade (que produza aquilo que Hannah Arendt chama de "vida com pensamento"). Sendo assim, discursos contra os homossexuais e transexuais ou ofertas de "cura" da homossexualidade são facilmente aceitos (inclusive por muitos homossexuais e transexuais que vivem sua condição com culpa e sem orgulho porque vítimas de violências simbólicas e reais na família e em outros espaços); por isso, a Igreja investe neles (nesses discursos anti-homossexualidade), atraindo fiéis que lhes permitem o enriquecimento obsceno e o fortalecimento político-cultural (outra estratégia da Igreja para tal é a demonização de religiões minoritárias e politeístas).
Nos EUA, tipos como MALA-FAIA perderam a batalha cultural e se reduziram a grupo raivoso olhado pelos demais como ignorantes e obscurantistas. Aqui no Brasil e nos países da África ao Sul do Saara, eles vêm ganhando a batalha devido ao débito histórico dessas nações em relação ao acesso à educação de qualidade e a outros direitos civis.
Nessas eleições fiquemos de olho e atentos para não deixarmos que mais obscurantistas homofóbicos se apropriem do Estado.
Jean Wyllys



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